A capa vermelha da Chapeuzinho
por Ana Paula Trapé, quarta, 13 de julho de 2011 às 23:56
Tem gente que passa a vida se ocupando de outras vidas, não de forma favorável ou benevolente, mas sim de forma vampírica e maldosa.
Isso acontece, em geral, com aquelas pessoas que nada tem de interessante para serem admiradas, ou se têm não sabem como explorar sua própria imagem de forma positiva, tendo que desmerecer os outros para sobressaírem-se.
Acontece que esse tipo de gente um dia é desmascarada e vai ficando só, cada vez mais só.
E por mais que você tenha boas intenções e gaste a sua saliva para tentar abrir a cabeça dessas pessoas, mostrando formas mais saudáveis de viverem, não acontece, porque na verdade a infelicidade desses seres pequenos se alimenta nos detalhes da vida de quem já se destaca, às vezes, (muitas delas), sem querer.
Eu gostaria até de ser mais polida, mas não consigo, gosto de falar logo o que penso, não costumo engolir sapos. Isso incomoda um bocado! Mas, ser assim é muito melhor do que te beijar a face e falar de você por trás.
Na verdade acho feio demais quem age assim, tentando ganhar a simpatia das pessoas com histórias sobre terceiros, ou quartos. Ainda quando essas histórias condizem com um mínimo de verdade, é uma coisa, mas em geral a maledicência que esse tipo de gente pretende criar sai apenas da cabeça delas próprias.
Então esse tipo de ser humano, (em minha opinião, desprezível), alimenta sua felicidade com os percalços da vida dos outros. Sofrem com a felicidade de quem não precisa de outros para ser felizes.
E como infelizes, esses pobres seres se incomodam com qualquer felicidade advinda dos seus próximos. E vibram internamente com o que acontece de ruim às pessoas ao seu redor.
Os completamente insatisfeitos consigo estão sempre dessa forma agindo. Se a vizinha está namorando, nunca é por amor. Se você ganha melhor é porque faz falcatruas.
Essa maledicência afeta pouco aos autênticos, irrita mas não derruba, porque os autênticos são pessoas que se amam, que não precisam de gente ao redor dizendo coisas bonitas para se sentirem importantes.
Mas é compreensível quando a vida é de tamanho desinteresse que a vida dos outros é mais gostosa de viver.
E para agirem livremente, se vestem com a capa vermelha de menininha que vai entregar os docinhos da vovó, mas a vovó tem que ficar bem esperta, porque não é o lobo que se disfarça de vovó, nesse caso, é lobo que se veste da capa da menininha.
Esse tipo de gente anda disfarçada, e confia tanto, mas tanto em sua capa vermelha que cobre o focinho, que consegue convencer até os mais inteligentes de que são menininhas. Só que, já fazendo um trocadilho, "as capas sempre caem" e os dentões logo aparecem. Porque essa capa não pode ser eterna, tem que tirar para lavar a cara suja de sangue.
Tinha muita pena de quem está fadado à solidão, à vida assim, desinteressante, tão cheia de tempo de se ocupar da vida dos outros. Não conseguem ter amizades sinceras, admiração que dure, amores verdadeiros, porque são disfarçadas e toda a sua vida acaba sendo um disfarce. Mas não dá para passar todos os dias do carnaval vestindo o mesmo abadá, fica suado, cheirando mal e as pessoas reparam, é inevitável. Só que agora não mais lamento quando me deparo com pessoas com esse perfil, apenas me afasto, sempre preferi os lobos com dentes bem à mostra, faz mais o meu estilo.
Somos mais felizes quando somos a vovó enganada, triste é o lobo que passa a vida com a capa da chapeuzinho, sem ninguém que o conheça de verdade por perto, e quando perto, logo fugindo, porque todo mundo sabe que no fim da história, quando o disfarce cai, é que o lenhador vai agir.
E a tempo, faço minhas as palavras de Teilhard de Chardin, “no men is an island”!Ana Paula Trapé